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 CONEXÃO TELEVISIVA COM AS  «SCHOLAS OCCURRENTES» TRANSMITIDA PELA CNN

PALAVRAS DO PAPA FRANCISCO

  "Auletta" da Sala Paulo VI
Quinta-feira, 17 de Setembro de 2015

[Multimídia]


 

(De: L'Osservatore Romano, Edição semanal em português n° 39 de 24 de Setembro de 2015)*

A primeira pergunta, formulada por um estudante de Nova Iorque, apresentou a questão da responsabilidade da tutela do meio ambiente.

É uma das coisas que devemos iniciar desde crianças: ocupar-nos do cuidado do meio ambiente. Neste momento, o meio ambiente faz parte dos excluídos. Está a gritar que lhe prestemos atenção, que cuidemos dele. Portanto, como pode um jovem ocupar-se do meio ambiente? Antes de tudo, vendo os problemas que surgem no próprio bairro, na sua cidade, na sua nação; que problemas ambientais existem? Ou quando lê as notícias, por exemplo, que o urso polar no Alasca teve que se deslocar ainda mais para o norte. Porquê? Porque os glaciares começaram a derreter. Então, é preciso dar-se conta de que há problemas grandes e também pequenos. Na encíclica há diversas pequenas sugestões que podemos concretizar. Indicações. Por exemplo, podemos utilizar sempre material biodegradável. Sabeis que um saco de plástico que não é biodegradável permanece por milénios e isto provoca um dano ao meio ambiente. Podemos utilizar tudo biodegradável. Se trabalhais no campo, na horta, deveis dar-vos conta de que a monocultura prejudica a terra. A cultivação deve variar, de acordo com os anos, para que a terra repouse, se regenere. Ou seja, encontrar modos concretos que podeis praticar. O desperdício de papel é impressionante. Também o de electricidade. Este facto obriga as centrais a utilizar modos de produção de electricidade que contaminam o meio ambiente. É preciso cuidar da casa comum. O meio ambiente é a casa comum. Há tempos, falando com uma pessoa que conhece esta situação, disse-lhe: «Sim, devemos tomar decisões para as gerações futuras, para os nossos filhos». Respondeu-me: «Se as coisas continuarem assim, pergunto-me, haverá novas gerações?». O problema é sério. É preciso que nos conscientizemos disto. No oceano Pacífico, por exemplo. As ilhas do oceano Pacífico, mesmo sendo Estados independentes, se a situação continuar assim, daqui a vinte anos deixarão de existir. Então, o que posso fazer com a minha pequena colaboração? Aquele pouco que farei uniar-se-á a outro pouco e outro ainda. Unir as vontades para salvar a nossa casa comum.

A segunda pergunta, de uma jovem de Havana, referiu-se às características que um líder deve ter.

Olha, digo-te uma única coisa: um líder é bom se for capaz de fazer nascer entre os jovens outros líderes. Se ele for o único líder, é um tirano. Isto é, a verdadeira liderança é fecunda e cada um de vós, tem uma semente de liderança dentro de si. Fazei com que ela cresça. Sede líderes lá onde vos couber ser. Líder de pensamento, de acção, de alegria, de esperança, de construção de um mundo melhor. Este é o vosso caminho e a semente está dentro de vós. Os líderes únicos hoje existem mas amanhã não. Se eles não semearem liderança nos outros, não servem, são ditadores. Não quero ser ditador. Por isso gosto de semear.

A terceira pergunta foi formulada por uma jovem de Nova Iorque que mostrou a Francisco uma grande fotografia de uma árvore morta com um passarinho empoleirado sobre um dos seus ramos.

Sim, a árvore morreu mas o passarinho está vivo. Aquela ave terá necessidade, daqui a alguns meses, de construir um ninho para depor os ovos e ter uma ninhada, mas se a árvore está morta, como poderá fazer o ninho? É o que acontece quando não nos ocupamos do meio ambiente. Uma morte traz outra morte. E em vez de semear crescimento, esperança, semeamos morte. O caminho deve ser ao contrário: cuidar da vida. Uma vida traz outra vida. A imagem, a foto mais bonita seria uma árvore viva e um pássaro vivo. Mas agora estamos assim. Uma parte da humanidade está a morrer, mas morre sozinha e faz com que outros morram, não deixa que os outros vivam. A foto que escolheste é muito significativa.

A quarta pergunta, dirigida ao Papa por um jovem de Havana, recordou a questão do embargo em relação a Cuba.

Aleluia. Farei o possível, tudo, para não esquecer. Construir pontes e desbloquear, a fim de que haja comunicação, para que a comunicação favoreça a amizade. Uma das realidades mais bonitas é a amizade social. Gostaria que obtivésseis a amizade social.

Outra pergunta, de um estudante de Nova Iorque, tratou o tema da possibilidade e dos direitos dos jovens à educação.

Sim, a educação é um dos direitos humanos. Uma criança tem o direito de ser amada. Tem o direito — direito humano — de brincar. Uma criança tem o direito de aprender a sorrir. Uma criança tem direito à educação. E poderíamos continuar a enumerar os direitos. Penso que nos encontramos num momento de crise no mundo em relação à educação. Quantas crianças, nos países que estão em guerra neste momento, não têm educação. Milhares e milhares de crianças. Pensemos nos milhares e milhares de crianças excluídas da possibilidade da educação. É um desafio que deve ser enfrentado. E devemos iniciar nós. Educar-nos entre nós. O serviço de nos educar. Não espereis que os Estados ou que os Governos se ponham de acordo. Passarão muitos anos, porque é difícil. O pacto educativo interrompeu-se. Eduquemo-nos entre nós. Quantos jovens da vossa idade no final de semana, nos feriados, vão educar, dar lições a outros, ensinar-lhes! A educação é um direito humano. Um povo que não é educado, por causa da guerra ou por todas as razões que impedem a educação, é um povo em decadência, decai, decai e pode até voltar ao nível dos instintos. Por conseguinte, se quiserdes fazer algo, organizai-vos para ajudar os Governos, os Estados, a educar os jovens que não têm acesso directo à educação. Uma criança tem o direito de brincar. E parte da educação é ensinar a criança a brincar para que aprenda a ser social na brincadeira, aprenda a alegria da vida. Comprometei-vos na educação dos jovens. A educação é um direito humano.

A pergunta sucessiva reafirmou o direito das crianças a brincar, a viver em paz e em alegria. Neste contexto, o Papa tirou do bolso um pequeno projéctil que lhe tinha dado um jovem de um país em guerra e mostrou-o.

Direito a brincar. Direito à alegria. Direito a sorrir. Conto-vos algo: esta manhã recebi um grupo de jovens. Um deles vinha de um país em guerra e ofereceu-me isto. É um projéctil daqueles que atingem continuamente a sua cidade e os jovens, para sobreviver, devem permanecer fechados em casa, não têm direito a brincar. Há outros lugares nos quais uma criança não tem direito a brincar, simplesmente porque vive a angústia da fome, da solidão, da rua. Sabeis quantas crianças vivem na rua? Perdemos a noção de quantas crianças não têm a alegria da brincadeira por causa da guerra, da pobreza ou porque vivem na rua. E os jovens que não sabem comunicar com a alegria do jogo, são presas dos traficantes. São usados para a delinquência juvenil, para os furtos, para a droga, a prostituição, para tantas coisas. Talvez o melhor modo de iniciar a educar os jovens é dar-lhes a possibilidade de brincar. Recordai-vos deste pequeno projéctil. Centenas de jovens escondidos, sem poder brincar para não ser assassinados.

Na conclusão, o moderador do encontro convidou o Papa a plantar simbolicamente uma oliveira num vaso. E pediu a Francisco para depositar o projéctil na terra, no vaso da oliveira.

Enterrar o projéctil como sinal. Foi um prazer ter transcorrido este tempo convosco. Ide em frente. Não tenhais medo. O medo paralisa. Movimentai-vos. Há muitas coisas por fazer. O futuro está nas vossas mãos. Está ali. Levai-o em frente. Que Deus vos abençoe! Peço a cada um, com base na própria confissão religiosa, que rezeis por mim. Obrigado.


* Foi um autêntico diálogo sobre questões cruciais, do embargo aos direitos essenciais negados e às tragédias provocadas pelas guerras, que o Papa manteve com dez jovens na vigília da sua viagem a Cuba e aos Estados Unidos da América. Um confronto directo e claro, que se tornou possível graças à ligação televisiva satelitar, exactamente com cinco estudantes de Havana e cinco de Nova Iorque. O programa foi organizado pela Scholas occurrentes, a rede educativa argentina que já se difundiu a nível internacional, que pretende «favorecer a cultura do encontro segundo as indicações de Francisco», criando «novas plataformas para o diálogo», explicou o director José Maria del Corral, que esteve presente como moderador. O Papa participou na transmissão na tarde do dia 17 de Setembro e no final abençoou simbolicamente uma oliveira, em cuja terra foi posto, em sinal de esperança pela paz, uma bala, que na manhã do mesmo dia tinha sido entregue a Francisco por um jovem proveniente de um país em guerra. A transmissão foi possível graças ao Centro televisivo do Vaticano e à Rádio Vaticano e pôde contar também com a colaboração da Unicef e da Cnn para a ligação satelitar. Foi ao ar precisamente no canal dessa emissora americana no dia 18 de Setembro às 20h00 de Nova Iorque. Em seguida, publicamos uma síntese das perguntas e a nossa tradução das respostas do Pontífice.

 



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