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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Com lágrimas de pai e de mãe

Quinta-feira, 27 de outubro de 2016

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 44 de 03 de novembro de 2016

Hoje Deus continua a chorar — com lágrimas de pai e de mãe — diante das catástrofes, das guerras desencadeadas por adorar o deus dinheiro, dos muitos inocentes assassinados devido às bombas, de uma humanidade que parece não querer a paz. Foi um forte convite à conversão lançado pelo Papa, o qual recordou que Deus se fez homem precisamente para chorar com e pelos seus filhos.

No trecho do Evangelho de Lucas (13, 31-35) proposto pela liturgia, explicou o Papa, «parece que Jesus perdeu a paciência, usando até palavras fortes: não é um insulto, mas também não é um elogio dizer “raposa” a uma pessoa». Concretamente, diz aos fariseus que lhe falaram de Herodes: «Ide, e dizei àquela raposa». Mas, já «noutras ocasiões Jesus falou com dureza»: por exemplo, disse «geração perversa e adúltera». E chamou os discípulos «duros de coração» e «estultos». Lucas refere as palavras com as quais Jesus faz um verdadeiro «resumo daquilo que deverá acontecer: “É necessário que eu continue o meu caminho, porque não é possível que um profeta morra fora de Jerusalém”». Praticamente, o Senhor «diz o que acontecerá, prepara-se para morrer».

Mas «logo a seguir Jesus muda de tom», evidenciou Francisco. Com efeito, «depois desta explosão muito forte muda de tom e olha para o seu povo, olha para a cidade de Jerusalém: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que a ti são enviados!». Ele olha para a «Jerusalém fechada, que nem sempre recebeu os mensageiros do Pai». E «o coração de Jesus começa a falar com ternura: “Jerusalém, quantas vezes quis ajuntar os teus filhos, como a galinha os seus pintainhos!”». Eis «a ternura de Deus, a ternura de Jesus». Naquele dia ele «chorou sobre Jerusalém». Mas «aquele pranto de Jesus — explicou o Papa — não é o pranto do amigo diante do túmulo de Lázaro. É o pranto de um amigo diante da morte do outro»; ao contrário, «este é o pranto de um pai que chora, é Deus Pai que chora aqui na pessoa de Jesus».

«Alguém disse que Deus se fez homem para poder chorar devido ao que fizeram os seus filhos», afirmou o Pontífice. E assim «o pranto diante do túmulo de Lázaro é o pranto do amigo». Mas o que narra Lucas «é o pranto do Pai». A este propósito Francisco quis propor de novo também a atitude do «pai do filho pródigo, quando o filho mais novo lhe pediu o dinheiro da herança e se foi embora. E «aquele pai está seguro, não foi ter com os seus vizinhos para dizer “olha o que me aconteceu, o que me fez este pobre desgraçado, amaldiçoo este filho!”. Não, não fez isto». Pelo contrário, disse o Papa, «tenho a certeza» que aquele pai «se foi embora para chorar sozinho».

É verdade, o Evangelho não revela este pormenor — prosseguiu Francisco — mas narra «que quando o filho voltou viu o pai de longe: isto significa que o pai subia constantemente ao terraço com esperança de ver se o filho regressava». E «um pai que faz isto é um pai que vive no pranto, esperando que o filho volte». Precisamente este é «o pranto de Deus Pai; e com este pranto o Pai recria no seu Filho toda a criação».

Quando Jesus carregou a cruz para o Calvário — recordou o Pontífice — as mulheres piedosas choravam e ele dizia-lhes: “Não, não choreis por mim, chorai pelos vossos filhos”». É o «pranto de pai e de mãe que Deus também hoje continua a fazer: também hoje diante das catástrofes, das guerras que se fazem para adorar o deus dinheiro, dos muitos inocentes assassinados pelas bombas lançadas pelos adoradores do ídolo dinheiro». E assim «também hoje o Pai chora, também hoje diz: “Jerusalém, Jerusalém, meus filhos, o que estais a fazer?”». E «di-lo às pobres vítimas e também aos traficantes de armas e a todos aqueles que vendem a vida das pessoas».

Na conclusão Francisco sugeriu que «pensemos que o nosso Deus Pai se fez homem para poder chorar. E far-nos-á bem pensar que o nosso Deus Pai hoje chora: chora por esta humanidade que não consegue compreender a paz que ele nos oferece, a paz do amor».

 


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